Distrito C no Seminário Espaço Público e Cidadania (UCLG)

CGLU, Economia Criativa, Economia da Experiência, Economia do Conhecimento, Memória

flyer-logo-pt16-09-2014

De 27 a 29 de Outubro de 2014, foi realizado, em Porto Alegre, o evento em rede “Espaço Público e Cidadania” pela organização internacional  CGLU, Cidades e Governos Locais Unidos, com sede em Barcelona, como parte dos trabalhos da Comissão de Planejamento Urbano Estratégico, presidida pelas prefeituras de Porto Alegre e Durban, na África do Sul. O evento foi organizado em parceria com a Gerência de Relações Internacionais, da Secretaria de Governança Local.

O objetivo foi  “conhecer e ampliar estratégias de desenvolvimento e atuação no espaço público, como parte da gestão das cidades. A dinâmica proposta conta com a apresentação de práticas locais e internacionais, as quais alimentarão o debate e a troca de conhecimento. O fortalecimento deste tema nas agendas dos governos locais soma-se aos esforços mundiais em direção a Conferência do Habitat III das Nações Unidas, a realizar-se em 2016.”

Visita ao Distrito C

No primeiro dia do evento, dia 27 de outubro, levamos um grupo de participantes para conhecer umas das práticas locais, o projeto Distrito Criativo, desenvolvido pela UrbsNova – Agência de Design Social.

O passeio começou na r. Gonçalo de Carvalho e terminou na Av. Farrapos, em frente a R. Paraíba, onde se encontra uma unidade de triagem de resíduos sólidos, criada pela prefeitura, que havia sido visitada pela manhã.

Os integrantes do grupo visitante eram do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Alemanha, Espanha, Colômbia e Moçambique.

Durante o passeio foram observadas questões como importância das praças, do patrimônio histórico e ambiental, arte urbana, memória dos antigos moradores, economia criativa e revitalização urbana.

As questões discutidas durante todo o evento, sobre como dar vida a espaços públicos, fazendo deles verdadeiros lugares, com identidade própria, foram muito importantes para esclarecer essa linha de ação do nosso projeto.

Abaixo algumas fotos do passeio.
Fotos  de Adriana Marchiori – Assessoria de Comunicação/SMF – adrianam@smf.prefpoa.com.br

1. Saída em frente a Federasul, no Palácio do Comércio (Centro Histórico), e deslocamento.

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2. Início do passeio na r. Gonçalo de Carvalho, com suas belas tipuanas, rua que faz a fronteira entre os bairros Independência e Floresta.
O Distrito C tem participantes em ambos os bairros.

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3. Visita à antiga Cervejaria Bopp, depois Continental e Brahma, e desde 2004, parte do Shopping Total.

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4. O grupo visitou o brechó Balaio de Gato, participante do Distrito C.

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5. Encontro com o artista urbano Xadalú, participante do Distrito C.

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6. Conjunto de casas antigas que formam o ambiente da r. São Carlos. Mora em uma delas o poeta Ricardo Silvestrin e em outra está o Brechó Bajestero, ambos participantes do Distrito C.

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7. Visita a Praça Florida, um dos principais espaços públicos no território do Distrito C e que queremos tornar um espaço de maior participação.

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8. Visita ao Vila Flores, participante do Distrito C.

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9. Conversa informal com o coletivo Casa Grande, um projeto sobre arte negra.

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Michele Zgiet, do grupo Casa Grande.

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10. Encontro na rua com o Seu Aldo Rossato, de 84 anos, que sempre morou no mesmo local, memória viva desse território. Infelizmente, Seu Aldo faleceu poucos meses depois desse encontro.

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11. Em frente à antiga Importadora Americana, um grande prédio, que ficou muitos anos inativos e que começou recentemente o processo de recuperação.

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Grupo de Moçambique.

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12. Na r. Sete de Abril, desde a Importadora Americana, se vê o antigo Moinho Germani.

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Infelizmente pelo tempo limitado da visita, não pudemos mostrar os demais participantes do Distrito C.

Apresentação do Distrito C em painel do Seminário Espaço Público e Cidadania

Durante os dias seguintes uma série de apresentações e painéis discutiram diversos aspectos do espaço público.

Abertura do seminário, realizada pelo prefeito José Fortunati.

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Notícia sobre o Seminário Espaço Público e Cidadania.

Apresentação do Projeto Distrito C, por Jorge Piqué, da UrbsNova.

Durante a apresentação mostramos a localização desse território criativo e de alguns participantes. Neste caso, se trata de um projeto que conecta espaços privados de economia criativa, do conhecimento e da experiência, com os espaços públicos, no seu entorno, como rua, praças, etc.

Foto: Àlex Giménez Imirizaldu (CCCB, Barcelona)

Publicações

Em razão do evento foi publicado em outubro de 2014, em português e inglês, o documento Espaço Público e Cidadania.

Documento em português

Documento em inglês

Abaixo, trecho sobre o Distrito C, na tradução para o inglês da publicação.

Distrito C em Ingles

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A Casa da Floresta, de Augusto Meyer

Memória

Em 26 de agosto de 1945, Augusto Meyer (Porto Alegre 24/01/1902 – Rio de Janeiro 10/07/1970) publicou  no Jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, uma crônica com lembranças da sua infância no bairro Floresta, em Porto Alegre, chamada A CASA DA FLORESTA.

Tinha, portanto, 43 anos quando escreveu este texto, que reproduzimos abaixo (clique para ampliar).
Se imaginarmos que essas memórias em estilo proustiano, segundo Paulo Bungart Neto, eram dos seus 10 anos, deviam se referir aos anos de de 1912-15, ou seja, 30 anos antes, no mínimo.

Este post integra a linha de ação Memória Viva do Distrito Criativo, que tenta recuperar por fotos, vídeos e textos as lembranças dessa parte da cidade.
É muito importante para o Distrito Criativo esse contato com o passado da região, só assim teremos propostas melhores para o seu futuro.

A Casa da Floresta, de Augusto Meyer, 1945Alguns anos mais tarde, em  1949, o texto foi publicado como “O menino da Floresta”, terceiro
capítulo do livro “Segredos da Infância”  (Porto Alegre: Editora Globo. 1ª ed. 1949)

Ainda não havíamos enveredado pelo caminho da escola. Acordar de manhã, ouvindo o canto dos passarinhos nas laranjeiras do quintal, vendo o fogo do sol nas cortinas claras da janela, era reatar o mesmo sonho acordado, ir ao encontro das puras sensações, descobrir o grande mundo confuso e imprevisto da infância.

Fazíamos a primeira refeição na sala de baixo, com janelas gradeadas que davam para a rua. O velho Sampaio, pai de Aparício, lá na frente, do outro lado da calçada, abria as portas da loja, monologando sob os bigodões retorcidos. Seu Rafael ia esperar o bondinho de burro na esquina. Criadas e donas de casa batiam papo, de vassoura em punho e, depois de varrer o lajedo grosseiro, recolhiam a lata do lixo. Com o sol ainda baixo, sombras compridas atravessavam a rua poeirenta, cheia de pedras e buracos, onde as rodas e cascos deixavam marcas misturadas de sulcos e ferraduras.

Ninguém falava então em Cristóvão Colombo, rua da floresta, diziam todos, e que nome sugestivo, acenando à imaginação com uma espessura verde e fresca, incompatível com as casas e as calçadas, mas, por isso mesmo, ainda mais impregnada de misterioso encanto.

Por ali passavam as coisas surpreendentes do dia-a-dia, as carroças do lixeiro, do padeiro e do leiteiro, e s que tomavam o rumo da praça, carregando aos poucos a terra do barranco.

O grande sucesso cabia sempre aos carroções dos cervejeiros, com suas lindas parelhas de mulas gordas, principalmente quando transportavam Alsina ou gasosa em caixas quadriculadas. Ondulavam ao trote largo as ancas lisas, batiam no chão duro os cascos finos, tudo num ritmo empolgante, que o carroceiro incitava com uns ruídos de beiço, logo imitados pelo Rico, meu irmão, nos nossos brinquedos.

Só a imaginação poderá reproduzir o verde vivo daqueles campos de cevada que havia então na floresta, verde realçado violentamente pelo tijolo sem reboco das fábricas de cerveja. A chaminé foi a nossa primeira rima:

“A chaminé do Bopp
fabrica chope.
A chaminé do Rita
Que nunca apita.
A chaminé do Sassa
Que faz fumaça…”

Vejo tudo como se fosse hoje. O primeiro bonde elétrico parou em frente da nossa casa, como um brinquedo para gente grande. O monstro! Era uma engenhoca maravilhosa, que deslizava sobre os trilhos, sem casco de burro, ligada ao fio por uma alavanca de carretilha; na tabuleta vermelha ressaltava um F branco; os passageiros iam tão emproados…

– Olha o bonde sem burro!

E a gurizada, num berreiro de festa; – Óia o bonde eletro, óia ele!

Bibliografia

Correio da Manhã 26 de agosto de 1945

O OLHAR PROUSTIANO DE AUGUSTO MEYER: MEMÓRIA COMO REINVENÇÃO
Paulo Bungart Neto