As Fábricas de Criação de Barcelona

Barcelona, Economia Criativa, Economia da Experiência, Economia do Conhecimento, Fábricas de Criação, Memória, Patrimônio Histórico, Turismo

Introdução

No segundo semestre de 2015, UrbsNova está presente em Barcelona, em um processo de criar novas conexões entre as duas cidades, desenvolver colaborações com agentes culturais, arquitetos, empresas, governo e associações e procurar novas oportunidades para nosso projeto, o Distrito C – Distrito Criativo de Porto Alegre.

Nesse contexto mais amplo, as Fàbriques de Creació de Barcelona são, sem dúvida, um importante tema e por essa razão, foram recentemente tema na página do Distrito C, publicada mensalmente no Jornal Floresta.

Vamos, neste post, desenvolver um pouco mais as Fábricas de Criação, embora ainda seja um grande resumo, já que são muito importantes para Porto Alegre, para o futuro do 4º Distrito, e em especial para o Distrito C.
Esse é um resumo geral, mais adiante colocaremos links com dados e muitas fotos sobre cada fábrica.

Decadência industrial e Renascença criativa

Desde o final do séc. XIX, até os anos 70 do séc. XX, Porto Alegre utilizou sua zona norte, junto à orla, uma região pouco habitável, de banhados, depois zona rural, com chácaras, como sua zona industrial preferencial, dentro de um amplo território, que se chama ainda hoje “4º Distrito”. Esse panorama é muito similar ao desenvolvimento que se realizou no Distrito de San Martí, especialmente o bairro de Poblenou, onde ainda temos uma série de antigas fábricas sem função.

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Fábrica Ca L´Alier, Barcelona, abandonada desde 2004. Foto Jorge Piqué.

Desde 2000, a Prefeitura de Barcelona (em catalão, o Ajuntament) começou a implantar um projeto de revitalização nesse território, que passou a se chamar 22@Barcelona, baseado principalmente em TI e Economia do Conhecimento. Essa foi a resposta do município à uma certa decadência econômica e degradação urbana dessa região ao norte da cidade, mas que é bem menor do que a que encontramos no 4ª Distrito.
Em breve: post específico sobre o 22@.

22@

As áreas em azul são as que sofreram intervenções do Plano 22@Barcelona, no Distrito de San Martí.

O projeto Distrito Criativo, de UrbsNova, desde 2013, também procura criar uma nova identidade, contemporânea, inovadora e criativa, para uma parte da antiga região industrial, mas com duas diferenças fundamentais. Em primeiro lugar, a iniciativa não parte do governo e de grandes empresas. Na verdade, já houve esse tipo de proposta no passado recente. Nos anos 90, portanto, já antes da criação do 22@, a Prefeitura de Porto Alegre havia proposto o Parque Tecnológico do 4º Distrito, mas depois de 9 anos, foi desativado em 2004. Nossa proposta, ao contrário, vem dos pequenos e médios empreendedores criativos já instalados na região, sem ajudas ou apoios oficiais de governos.

Em segundo lugar, diferentemente do 22@, o setor de tecnologia, neste primeiro momento, não foi o nosso foco. Nos anos 90, o conceito já era de parque tecnológico e em 2015, se tenta repensar a ideia de clusters tecnológicos para toda a região do 4º Distrito. Hoje, no entanto, o que encontramos como vanguarda econômica e cultural consolidada são artistas e empreendimentos de economia criativa, do conhecimento e da experiência,  em pleno funcionamento, na sua grande maioria instalados a partir dos anos 2000, mas alguns mesmo antes. Hoje, setembro de 2015, são mais de 80 locais que participam de forma ativa no Distrito C,  sobre um território de aproximadamente 100 ha, gerando 600 empregos diretos e indiretos.

Para uma ampla comparação entre o 4º Distrito e o Distrito de San Martí, veja a primeira parte do texto Distritos de Inovação e Criação – Barcelona e Porto Alegre, em espanhol.

Nossa experiência recente com o Distrito Criativo nos leva a um interesse maior em iniciativas semelhantes, artes, cultura, economia criativa, que com o tempo ganharam em Barcelona o apoio do Ajuntament, e que hoje são conhecidas como Fábricas de Criação.

As Fábricas de Criação

No Distrito de San Martí, antes mesmo do 22@, começou um processo muito interessante, onde artistas alugavam antigas fábricas, muitas em ruínas, e criavam ali um espaço de criação e colaboração muito importante desde um ponto de vista cultural. Depois de mais de 8 anos investindo em empresas de tecnologia, devido principalmente à pressão de artistas e suas associações, a Prefeitura socialista de Barcelona institucionalizou as chamadas Fàbricas de Creació, em 2008. Após o 22@, que colocava a ênfase nas empresas de tecnologia, essa passou a ser a nova cara da cidade.

“El nuevo motor de Barcelona es la cultura y la creatividad”
Jordi Hereu, prefeito socialista, em 2008.

Atualmente são 10 na cidade e estabelecem uma reinterpretação da produção industrial e do passado histórico do território, criando novos significados e valores simbólicos, posicionando globalmente Barcelona como uma capital criativa.

Iniciativas do tipo Fábricas de Criação existem em muitas cidades da Europa, cada uma com suas peculiaridades, seu campo de atuação e seu modelo de gestão.

Existem 3 tipos básicos de gestão:
1. Propriedade pública, com gestão pública: esse é o modelo mais encontrado na França.

2. Propriedade privada, com gestão privada: esse é o modelo encontrado mais recentemente na Alemanha (nos anos 70 o modelo era a ocupação ilegal de fábricas).

3. Propriedade pública, com gestão transferida a associações ou à comunidade: esse é o modelo que encontramos mais em Barcelona, com exceções.

Neste post vamos tratar apenas de fábricas de criação localizadas no Distrito de San Martí e que, portanto, são a camada mais contemporânea de um ecossistema econômico-cultural, que tem como camada anterior, o 22@.

Palo Alto

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Palo Alto Market, um mercado de design e muitas outras coisas, que acontece no local no primeiro fim de semana de cada mês. Foto Jorge Piqué

A primeira utilização de uma edificação fabril para fins culturais talvez tenha sido Palo Alto, já em 1987, uma antiga fábrica têxtil de 1875, e que hoje reúne empresas da economia criativa e em alguns fins de semana organiza um mercado de rua de produtos, apresentações musicais e gastronomia, o Palo Alto Market.

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Palo Alto nos anos 90

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De fato, Palo Alto não é uma das 10 Fábricas de Criação de Barcelona, homologadas pela Prefeitura. É propriedade privada e com gestão privada, conforme um modelo que encontramos mais recentemente na Alemanha.

Pierre Roca & Associats, uma empresa cultural dedicada a performances, comprou a antiga fábrica em 1987. O espaço tem 11.000 m², com paredes internas recobertas de vegetação.

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Foto Jorge Piqué.

Reunimos algumas fotos mais de Palo Alto no Facebook.
Em breve, post completo com muitas fotos.

Vídeo, em espanhol, sobre Palo Alto.

La Escocesa

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Fundos da Escocesa com sua chaminé e suas paredes com grandes murais. Foto Jorge Piqué

Era uma antiga fábrica de produtos têxteis, de 1852, que estava em ruínas, quando o proprietário alugou para um grupo de artistas visuais, por um preço baixo nos anos 90.

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Depois de anos de lutas, desde 1999, a Prefeitura cedeu em 2008 uma das naves industriais a uma associação e hoje reúne 20 artistas visuais residentes, catalães, como Juan Francisco Segura Martinez e Montse Valls, e muitos estrangeiros, como Rina Ota e Mina Hamada (Japão), e Tamara Zaitseva (Rússia). No momento acontece um importante festival internacional de arte mural ali.

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Pátio interno da Escocesa. Foto Jorge Piqué.

Apenas uma das naus, com  2.400 m², do complexo industrial, é propriedade pública, que cede a gestão a uma associação de artistas. As demais naus são propriedade privada.  La Escocesa aluga espaços para ateliers, abaixo do preço de mercado, e recebe verbas municipais, por isso tem uma programação cultural gratuita para o grande público, especialmente para o distrito onde está localizada.

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Frente da Escocesa, em 2015. Foto Jorge Piqué.

O foco são as artes visuais e plásticas.

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Um dos ateliers de artistas da Escocesa. Foto Jorge Piqué

La Escocesa organiza anualmente a seleção de artistas internacionais para residência e oferece espaço expositivo para seus residentes.

Clique na imagem para ver reportagem da Televisão Espanhola, programa La Aventura del Saber, sobre a Fábrica de Creación La Escocesa.

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Em breve, post completo com muitas fotos.

Hangar

Outra Fábrica de Criação, nasceu da luta acirrada dos moradores que apoiaram a Associação de Artistas da Catalunha para preservar a antiga fábrica Can Ricart, de 1852. Este complexo industrial de 21.000 m² se dedicou durante décadas à confecção de tecidos.

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Foi uma das lutas mais simbólicas pelo patrimônio histórico em Barcelona nos anos 90 e finalmente, em 1997, o ativismo de artistas e moradores convenceu a Prefeitura da importância de um uso cultural, ainda que parcial.

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Estado abandonado de Can Ricart.

 

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Durante anos a população se mobilizou para salvar a fábrica.

El 2010 Hangar entrou em fase de ampliação e reabilitação. Hoje funciona como fundação em uma das naves do complexo industrial, que é muito grande e que terá uso habitacional. Ocupa no total 2.600 m² e abriga 15 ateliers para artistas; um espaço de coworking, laboratórios de vídeo, imagem e interativos; 2 estúdios e oferece assessoria técnica e acompanhamento à produção.

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Foto Jorge Piqué.

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Espaço de criação e espaço administrativo de Hangar. Foto Jorge Piqué

Seu foco são as artes visuais, mas recentemente abriga também projetos de audiovisuais, vídeo, arte digital e tecnologia.

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Estúdio em Hangar. Foto Jorge Piqué

Hangar, além de centro de produção artística é também um centro de investigação sobre a arte. Anualmente são realizados concursos para residências internacionais de artistas e um espaço foi reformado para hospedar 4 artistas, que moram nas instalações.

Em breve, post completo com muitas fotos.

La Central del Circ

Como nos casos de Escocesa e Hangar, La Central del Circ nasceu da luta da Associação dos Profissionais do Circo da Catalunha e, em 2008, foi criada pela Prefeitura de Barcelona, como um espaço de criação, investigação, treinamento, ensaio e formação contínua.

Em 2011 se mudou para as instalações atuais, um espaço de mais de 3.000 m² no Parc del Fòrum de Barcelona, um amplo espaço para eventos, no extremo norte da cidade.

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Fachada da Central del Circ. Foto Jorge Piqué.

É a única “fábrica de criação” no Distrito de San Martí que não era no passado uma verdadeira fábrica. O modelo é de propriedade pública, com gestão repassada à uma associação de artistas de circo da Catalunha.

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Amplo espaço geral para ensaios. Foto Jorge Piqué.

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Acesso aos espaços privados de ensaios. Foto Jorge Piqué.

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Espaço privado para ensaios. Foto Jorge Piqué

A Central del Circ aceita grupos de teatro para residência.bolsa para produtor residente. Também organiza residências externas. Por receber aporte municipal, desenvolve uma série de iniciativas com escolas públicas.

Veja um vídeo, que mostra de uma maneira rápida as instalações.

Em breve, post completo com muitas fotos.

Fábrica Fabra i Coats

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Foto Jorge Piqué.

Por último, a única fábrica de criação em Barcelona, que é de propriedade e gestão pública. É também a única que não está na área do Distrito de San Martí, no qual está o 22@.

A fábrica se localiza em Sant Andreu, que, como o Poblenou, era antes um povoado nas vizinhanças de Barcelona. Com a expansão da cidade, no final do séc. XIX, se integraram ao perímetro urbano e é dessa época que surge o início da fábrica, que se dedicava a fiação. A nave de tijolos, com 4 andares, onde hoje se encontra a fábrica de criação, é de 1910-20.

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Foto área que mostra todo o complexo industrial. Apenas do prédio com as duas torres é usado como Fábrica de Criação.

Os amplos espaços internos de uma das naves do complexo foram recuperados para a função de Fábrica de Criação, que tem 6.500m². Os demais edifícios do complexo foram cedidos a outras associações, mas também com função cultural, como a biblioteca de bairro, o Centro de Arte Contemporânea, ou estão ainda a espera de recuperação.

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Foto Jorge Piqué.

Por ser administrada pela municipalidade, não se especializou em um único setor artístico, como as demais. Inclui artistas e projetos de artes visuais, artes cênicas, música, e multimídia. Esta fábrica está completamente integrada a vida cultural e educacional do Distrito de Sant Andreu.

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Uma das áreas é ocupada por pequenas empresas criativas, cada uma com sua mesa, no formato de coworking. Foto Jorge Piqué.

Até 5 companhias de teatro, dança ou circo podem ensaiar simultaneamente em suas instalações.

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Foto Jorge Piqué.

Por ser o maior dos espaços, Fabra i Coats na verdade é muito mais que uma fábrica de criação. O mesmo complexo industrial dá espaço para muitas e diferentes entidades culturais, educativas e associativas. Veja uma apresentação geral de todas as atividades neste vídeo em catalão:

Em breve, post completo com muitas fotos.

Essas são as 3 fábricas de criação no Distrito de San Martí, onde está o 22@, mais Fabra i Coats, que é uma espécie de sede oficial da rede, embora cada local tenha sua personalidade e administração própria.

Outras fábricas de criação em Barcelona são: Ateneu Popular 9 Barris (artes cênicas, circo, dança e música), Graner (dança), La Seca (artes cênicas), Nau Ivanow (artes cênicas, artes visuais e artes multidisciplinares), Sala Beckett (artes cênicas), e La Makabra.

As fábricas de criação de Barcelona estão em diferentes partes da cidade, mas se nota uma concentração na região norte, que era exatamente a zona industrial da cidade e que nos últimos anos sofreu mais com a desindustrialização e que tinha os bairros com maiores problemas.

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Casas de Criação e Fábricas de Criação no Distrito Criativo

No Distrito C temos no momento outro modelo, com muitos empreendedores e artistas ocupando antigas residências. Algumas, que poderíamos chamar de “Casas de Criação”, lugares como Centro Cultural Tony Petzhold, Vila Flores, CC100, esporo.cc, Studio Q, La Casa de Pandora e Casa da Música tem funções parecidas às Fábricas de Criação, pois reúnem diferentes setores artísticos, fomentando a hibridização entre eles, e incluem outras áreas da economia criativa, como design, música, moda, e da economia da experiência, como gastronomia.

Mas, além do belo patrimônio histórico residencial, que já está sendo ocupado por empreendimentos privados de economia criativa, temos um importante patrimônio comercial e industrial e, por exemplo, a Associação Chico Lisboa, que carece de amplos espaços expositivos, ateliers e oficinas para cursos, poderia encontrar sua nova sede no Distrito C, ocupando uma das antigas fábricas ou grandes prédios no bairro Floresta, o que viria a contribuir para a dinamização cultural e econômica de toda a região.

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Obra: Maria Tomaseli (2013)

Jorge Piqué
Fundador de UrbsNova
logomicro

https://www.facebook.com/jorge.pique
jorgepique@gmail.com
Bio completa

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Dia do Zeppelin no Distrito C

Memória, Patrimônio Histórico, Turismo

Fotos Zeppelin 1934 © J.P. Herrmann

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Jornal A Federação, 29 de junho de 1934.

No dia 29 de junho de 1934, o LZ 127 Graf (“Conde”) Zeppelin passou sobre Porto Alegre. Às 13 horas e 20 minutos a aeronave surgiu no horizonte, vinda do Norte, sobrevoou o bairro Floresta, em direção ao Centro,  passou muito próximo do Palácio Piratini, deu duas voltas e rumou Sul, em direção à Buenos Aires. Foi a única vez que o Graf Zeppelin foi a Buenos Aires.

Por isso, dia 29 de junho será no Distrito C, o Dia do Zeppelin, para lembrar essa data que causou sensação na cidade. Muitas fotos foram tiradas e duas delas, de autoria de Jacob Prudêncio Herrmann, foram reunidas, conforme se pode ver na primeira foto desse post.

Nelas aparecem os dois prédios de Josep Lutzenberger, projeto de 1928, onde atualmente está localizado o Vila Flores, que sedia os seguintes participantes do Distrito C: Estúdio Hybrido, Projeto Vuelta al Mundo, Ato Espelhado Companhia Teatral e Caixa do Elefante.

Seu Dilvo, antigo morador do bairro, que participou da Expedição Floresta 2, e sempre nos dava alguma explicação.

Alguns dos moradores antigos, como o seu Dilvo (foto), que tinha 6 anos na época, lembram de ver o Graf Zeppelin passar, uma imagem que ficou marcada na memória e que é parte da história onde está o Distrito C.

Origens dos Zeppelins

Os Zeppelins tiveram seus primeiros voos comerciais iniciados em 1910 pela DELAG, a primeira companhia aérea do mundo em serviço comercial e, quatro anos após o início de suas operações, em meados de 1914, a DELAG já havia transportado mais de 10.000 passageiros pagantes em mais de 1.500 voos. Após o enorme sucesso do projeto Zeppelin, a palavra Zeppelin passou a ser comumente utilizada para se referir a todos os dirigíveis rígidos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os militares alemães fizeram uso extensivo dos Zeppelins nos primeiros bombardeios aéreos da história, matando mais de 500 pessoas apenas na Grã-Bretanha. Com a derrota da Alemanha em 1918, o negócio de dirigíveis temporariamente desacelerou, pois embora a DELAG houvesse estabelecido um serviço diário regular entre Berlin, Munich e Friedrichshafen em 1919, os dirigíveis construídos para essa ocupação, eventualmente tiveram que se render aos termos do Tratado de Versalhes, que proibiu a Alemanha de construir grandes aeronaves. Entretanto, uma exceção foi feita permitindo a construção de um dirigível para a marinha americana, o que acabou por salvar a companhia da extinção. Em 1926 as restrições sobre a construção de dirigíveis foram levantadas e com a ajuda de doações do trabalho público foi iniciada a construção do LZ 127 Graf Zeppelin, o dirigível que veio a Porto Alegre. Seu grande idealizador e comandante foi o Dr. Hugo Eckener.

Sobre o LZ 127 Graf Zeppelin
Essa aeronave tinha 213 m de comprimento, 5 motores, transportava 20 passageiros e cerca de 45 tripulantes e um volume de carga de 105.000 m², sendo o maior dirigível da história até a data de sua construção.
Sua estrutura era baseada numa carcaça de alumínio, revestida por uma tela recoberta por lona de algodão, pintada com tinta prata, para refletir o calor.
O primeiro voo de longa distância aconteceu em 1928, ligando Frankfurt a Nova York, e durou 112 horas. Em 1929 foi feita a primeira viagem ao redor do mundo. Mas devido ao incêndio do outro dirigível, o Hindenburg, nos Estados Unidos, em 1937, o Graf Zeppelin foi retirado de serviço.

Áudio do segundo episódio de “O Zeppelin no Rio Grande do Sul”. Programa produzido pelo pesquisador e jornalista Marcello Campos para a Rádio Guaíba em outubro de 2009. Locução: Rui Strelow Pesquisa, produção e redação: Marcello Campos Técnica: José Bitencourt

Para entender o que significou a passagem do Graf Zeppelin, vejam esse documentário, baseado no diário de uma jornalista americana, que participou da volta ao mundo nesse dirigível em 1929, 5 anos antes dele sobrevoar Porto Alegre.
Poucos meses depois dessa viagem em agosto, a Grande Depressão começou em 24 de outubro de 1929.

Vídeo mostrando a chegada do Graf Zeppelin a Pernambuco e Rio de Janeiro, em 1932.
Flying Down to Rio, nº 4

Hugo Eckener era o comandante da aeronave e principal responsável por todo o projeto empresarial. Era uma figura pública muito conhecida na Alemanha e no exterior, principalmente após a volta ao mundo no Graf Zeppelin. Ele pensou em concorrer contra Hitler nas eleições de 1932. A partir de 1933, os nazistas que estavam no poder tentaram se aproveitar do enorme sucesso internacional dos dirigíveis para sua propaganda, embora seu comandante, Eckener, que passou por Porto Alegre, fosse um antinazista convicto, e por isso acabou sendo perseguido e afastado.

Em 2 de agosto de 1934, poucos dias depois da passagem do Graf Zeppelin por Porto Alegre, o Presidente Hindenburg morreu. Hitler apoderou-se do seu lugar, fundindo as funções de Presidente e de Chanceler, passando a se autointitular  Líder (Führer). Eckener foi proibido por Goebbels de ser mencionado pela imprensa alemã. Como Eckener já era um ícone cultural solidamente estabelecidos quando os nazistas chegaram ao poder, era difícil separar sua imagem e seu carisma público do Zeppelin. Para os americanos ele era a incorporação das melhores características empreendedoras alemãs, um Magalhães, um Colombo. Ele tinha o respeito mesmo da França, que lhe concedeu prêmios importantes.  (Zeppelin!: Germany and the Airship, 1900–1939, Guillaume de Syon)

O que aconteceu com o Graf Zeppelin, que sobrevoou Porto Alegre?
Depois do desastre nos EUA, em 1937, com o dirigível LZ 129 Hindenburg, ele foi retirado de operação, em 1940 foi desmanchado e sua estrutura de alumínio foi utilizada para a confecção de material bélico alemão na Segunda Guerra Mundial.

Mais info sobre o LZ 127 Graf Zeppelin na Wikipedia

Série de documentários The Airships, sobre a história completa dos dirigíveis, ou “zeppelins”, de 1890 até projetos atuais de reutilização.

1. The Airships – Lift Off (1890-1922)  / as origens
2. The Airships – Ship of Dreams (1923-1930)  / as grandes viagens de exploração e a volta ao mundo
3. The Airships – Forced Landing (1931-present) / viagens ao Brasil, uso como propaganda nazista

Desafio Zeppelin

Neste ano o desafio foi reunir interpretações artísticas atuais, contemporâneas, desse evento de 1934 ou do dirigível. Pinturas, colagens, objetos, etc., foram enviadors para agenciaurbsnova@gmail.com e publicamos na Galeria Desafio Zeppelin.

Veja a Galeria Desafio Zeppelin com fotos de obras de 8 participantes.

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Para inspirar os participantes, disponibilizamos um texto que descreve a recepção em Porto Alegre e algumas dessas famosas fotos tiradas naquele dia em Porto Alegre e em outras cidades do mundo, por onde o Graf Zeppelin passou.
Caso saiba o autor de alguma foto, nos ajude a identificar.

Porto Alegre, 29 de junho de 1934.

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A Federação

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Sobre o bairro Floresta. Foto Oscar Petersen (acervo Graça Petersen)

Graf Zeppelin sobrevoando a Av. Voluntários da Pátria.

Graf Zeppelin sobrevoando a Av. Voluntários da Pátria.

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Rua da Praia, na altura da Praça da Alfândega.

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Sobre o  Palácio Piratini. Foto Eduardo Hirtz (acervo Rejane Hirtz Trein)

Em razão da passagem do Graf Zeppelin, nos anos 30, surgiu na esquina das ruas Hoffmann e São Carlos, na mesma década, o Bar Zeppelin, um famoso bar para alemães e pilotos da Varig. O telhado do prédio aparece na primeira foto desse post.

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Foto Jacob Prudencio Herrmann

Conheça mais sobre a história desse prédio, que está no Plano de Economia Criativa – UrbsNova.

Depois de sobrevoar Porto Alegre em 1934, o Graf Zeppelin passa sobre Montevidéu, a caminho de Buenos Aires.

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 A chegada do Graf Zeppelin a Buenos Aires, onde pousou por alguns minutos, depois de passar por Porto Alegre e Montevidéu.

El aparato echó amarras – como un barco – en Campo de Mayo, ante la multitud hipnotizada, y los 200 soldados que se apresuraron a atar los cabos a un enorme mástil construído apresuradamente a tal efecto. Eran exactamente, como lo consignó la prensa, las 9,47 hs.
Se abrió la puerta y el primero en descender ante el entusiasmo y vítores de los miles de espectadores, fue el capitán, Dr. Hugo Eckener, de gorro naval y saco de cuero blanco. Se saludó con las autoridades, mientras se procedía a bajar la correspondencia y cargar agua
Pocos minutos después se embarcaron quienes habían descendido y exactamente a las 10,30 hs, el Graf Zeppelín partió, para nunca volver.”

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Buenos Aires

Vídeos do mesmo Graf Zeppelin que sobrevoou Porto Alegre, chegando e partindo de Buenos Aires.

Fotos do Graf Zeppelin em outras cidades, nos anos 20-30.

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Barcelona

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Barcelona

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Londres

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Créditos
Ideia original: Cícero Neves, do Ato Espelhado Companhia Teatral logofacepeq, participante do Distrito C.
Desenvolvimento: UrbsNova Agência de Design Social.

Levantamento do Patrimônio Histórico: 1. Comendador Coruja e São Carlos

Memória, Patrimônio Histórico
Foto Fernando Kokobun.

1º Levantamento do Patrimônio Histórico no Distrito C. Foto Fernando Kokobun.

Faz poucas semanas uma antiga casa no Distrito C, que não estava inventariada, foi derrubada em poucos dias. A derrubada é legal e na verdade não podemos afirmar que essa casa tinha realmente um valor patrimonial.

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Mas percebemos que casas e prédios no Distrito Criativo, eventualmente não inventariados, são os que estão em maior risco e por isso iniciamos esta linha de ação específica, dentro da questão do Patrimônio Histórico no Distrito C, que é mais ampla: fazer um levantamento sistemático, rua a rua, de todos os imóveis não inventariados no nosso território.

O primeiro levantamento aconteceu no sábado passado, dia 21 de fevereiro de 2015. O objetivo era identificar, fotografar e procurar informações sobre bens imóveis não inventariados no Distrito C. Com estes dados, vamos solicitar sua inclusão junto aos órgãos técnicos da Prefeitura, caso eles apresentem algum valor arquitetônico, histórico ou afetivo.

Início

A caminhada, com aproximadamente 20 pessoas, começou em frente ao prédio histórico da Cervejaria Brahma, tombado pelo município, um projeto do arquiteto alemão Theo Wiederspahn.

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Primeiros participantes chegando. Foto Jorge Piqué

Trajeto

Fomos pela R.  Comendador Coruja, em frente à antiga cervejaria, depois entrando à direita na R. São Carlos, e indo até o seu final, na R. Álvaro Chaves.

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Mais informação sobre o patrimônio não inventariado no Distrito C.
https://distritocriativo.wordpress.com/patrimonio-nao-inventariado-no-distrito-c/

Fotos do Levantamento do Patrimônio

Agradecemos a Fernando Kokubun, Helena Endo, Celma Paese, Fabrício Barreto, Silvia Marcon, pelas fotografias.

Abaixo, apenas as fotos que mostram o grupo fazendo o levantamento.
As fotos estão na ordem da caminhada.
Em breve publicaremos as fotos dos imóveis inventariados neste trajeto.

– R. Comendador Coruja
apenas a quadra entre a Av. Cristovão Colombo e a Av. Farrapos

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Foto Helena Endo.

 

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Foto Helena Endo.

 

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Foto Celma Paese

 

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Foto Celma Paese.

 

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Foto Celma Paese

 

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Foto Fernando Kokubun.

 

– R. São Carlos
toda a sua extensão

Foto Helena Endo.

Foto Helena Endo.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

Foto Fabrício Barreto.

Piano Livre no Distrito C, Foto Fabrício Barreto.

Foto Helena Endo.

Piano Livre no Distrito C. Foto Helena Endo.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

Foto Silvia Marcon.

Mosaico no Vila Flores, realizado por Silvia Marcon e  alunas. Foto Silvia Marcon.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Celma Paese.

Foto Fernando Kokobun.

Foto Fernando Kokubun.

 

Distrito C no Seminário Espaço Público e Cidadania (UCLG)

CGLU, Economia Criativa, Economia da Experiência, Economia do Conhecimento, Memória

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De 27 a 29 de Outubro de 2014, foi realizado, em Porto Alegre, o evento em rede “Espaço Público e Cidadania” pela organização internacional  CGLU, Cidades e Governos Locais Unidos, com sede em Barcelona, como parte dos trabalhos da Comissão de Planejamento Urbano Estratégico, presidida pelas prefeituras de Porto Alegre e Durban, na África do Sul. O evento foi organizado em parceria com a Gerência de Relações Internacionais, da Secretaria de Governança Local.

O objetivo foi  “conhecer e ampliar estratégias de desenvolvimento e atuação no espaço público, como parte da gestão das cidades. A dinâmica proposta conta com a apresentação de práticas locais e internacionais, as quais alimentarão o debate e a troca de conhecimento. O fortalecimento deste tema nas agendas dos governos locais soma-se aos esforços mundiais em direção a Conferência do Habitat III das Nações Unidas, a realizar-se em 2016.”

Visita ao Distrito C

No primeiro dia do evento, dia 27 de outubro, levamos um grupo de participantes para conhecer umas das práticas locais, o projeto Distrito Criativo, desenvolvido pela UrbsNova – Agência de Design Social.

O passeio começou na r. Gonçalo de Carvalho e terminou na Av. Farrapos, em frente a R. Paraíba, onde se encontra uma unidade de triagem de resíduos sólidos, criada pela prefeitura, que havia sido visitada pela manhã.

Os integrantes do grupo visitante eram do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Alemanha, Espanha, Colômbia e Moçambique.

Durante o passeio foram observadas questões como importância das praças, do patrimônio histórico e ambiental, arte urbana, memória dos antigos moradores, economia criativa e revitalização urbana.

As questões discutidas durante todo o evento, sobre como dar vida a espaços públicos, fazendo deles verdadeiros lugares, com identidade própria, foram muito importantes para esclarecer essa linha de ação do nosso projeto.

Abaixo algumas fotos do passeio.
Fotos  de Adriana Marchiori – Assessoria de Comunicação/SMF – adrianam@smf.prefpoa.com.br

1. Saída em frente a Federasul, no Palácio do Comércio (Centro Histórico), e deslocamento.

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2. Início do passeio na r. Gonçalo de Carvalho, com suas belas tipuanas, rua que faz a fronteira entre os bairros Independência e Floresta.
O Distrito C tem participantes em ambos os bairros.

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3. Visita à antiga Cervejaria Bopp, depois Continental e Brahma, e desde 2004, parte do Shopping Total.

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4. O grupo visitou o brechó Balaio de Gato, participante do Distrito C.

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5. Encontro com o artista urbano Xadalú, participante do Distrito C.

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6. Conjunto de casas antigas que formam o ambiente da r. São Carlos. Mora em uma delas o poeta Ricardo Silvestrin e em outra está o Brechó Bajestero, ambos participantes do Distrito C.

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7. Visita a Praça Florida, um dos principais espaços públicos no território do Distrito C e que queremos tornar um espaço de maior participação.

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8. Visita ao Vila Flores, participante do Distrito C.

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9. Conversa informal com o coletivo Casa Grande, um projeto sobre arte negra.

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Michele Zgiet, do grupo Casa Grande.

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10. Encontro na rua com o Seu Aldo Rossato, de 84 anos, que sempre morou no mesmo local, memória viva desse território. Infelizmente, Seu Aldo faleceu poucos meses depois desse encontro.

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11. Em frente à antiga Importadora Americana, um grande prédio, que ficou muitos anos inativos e que começou recentemente o processo de recuperação.

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Grupo de Moçambique.

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12. Na r. Sete de Abril, desde a Importadora Americana, se vê o antigo Moinho Germani.

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Infelizmente pelo tempo limitado da visita, não pudemos mostrar os demais participantes do Distrito C.

Apresentação do Distrito C em painel do Seminário Espaço Público e Cidadania

Durante os dias seguintes uma série de apresentações e painéis discutiram diversos aspectos do espaço público.

Abertura do seminário, realizada pelo prefeito José Fortunati.

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Notícia sobre o Seminário Espaço Público e Cidadania.

Apresentação do Projeto Distrito C, por Jorge Piqué, da UrbsNova.

Durante a apresentação mostramos a localização desse território criativo e de alguns participantes. Neste caso, se trata de um projeto que conecta espaços privados de economia criativa, do conhecimento e da experiência, com os espaços públicos, no seu entorno, como rua, praças, etc.

Foto: Àlex Giménez Imirizaldu (CCCB, Barcelona)

Publicações

Em razão do evento foi publicado em outubro de 2014, em português e inglês, o documento Espaço Público e Cidadania.

Documento em português

Documento em inglês

Abaixo, trecho sobre o Distrito C, na tradução para o inglês da publicação.

Distrito C em Ingles

A Casa da Floresta, de Augusto Meyer

Memória

Em 26 de agosto de 1945, Augusto Meyer (Porto Alegre 24/01/1902 – Rio de Janeiro 10/07/1970) publicou  no Jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, uma crônica com lembranças da sua infância no bairro Floresta, em Porto Alegre, chamada A CASA DA FLORESTA.

Tinha, portanto, 43 anos quando escreveu este texto, que reproduzimos abaixo (clique para ampliar).
Se imaginarmos que essas memórias em estilo proustiano, segundo Paulo Bungart Neto, eram dos seus 10 anos, deviam se referir aos anos de de 1912-15, ou seja, 30 anos antes, no mínimo.

Este post integra a linha de ação Memória Viva do Distrito Criativo, que tenta recuperar por fotos, vídeos e textos as lembranças dessa parte da cidade.
É muito importante para o Distrito Criativo esse contato com o passado da região, só assim teremos propostas melhores para o seu futuro.

A Casa da Floresta, de Augusto Meyer, 1945Alguns anos mais tarde, em  1949, o texto foi publicado como “O menino da Floresta”, terceiro
capítulo do livro “Segredos da Infância”  (Porto Alegre: Editora Globo. 1ª ed. 1949)

Ainda não havíamos enveredado pelo caminho da escola. Acordar de manhã, ouvindo o canto dos passarinhos nas laranjeiras do quintal, vendo o fogo do sol nas cortinas claras da janela, era reatar o mesmo sonho acordado, ir ao encontro das puras sensações, descobrir o grande mundo confuso e imprevisto da infância.

Fazíamos a primeira refeição na sala de baixo, com janelas gradeadas que davam para a rua. O velho Sampaio, pai de Aparício, lá na frente, do outro lado da calçada, abria as portas da loja, monologando sob os bigodões retorcidos. Seu Rafael ia esperar o bondinho de burro na esquina. Criadas e donas de casa batiam papo, de vassoura em punho e, depois de varrer o lajedo grosseiro, recolhiam a lata do lixo. Com o sol ainda baixo, sombras compridas atravessavam a rua poeirenta, cheia de pedras e buracos, onde as rodas e cascos deixavam marcas misturadas de sulcos e ferraduras.

Ninguém falava então em Cristóvão Colombo, rua da floresta, diziam todos, e que nome sugestivo, acenando à imaginação com uma espessura verde e fresca, incompatível com as casas e as calçadas, mas, por isso mesmo, ainda mais impregnada de misterioso encanto.

Por ali passavam as coisas surpreendentes do dia-a-dia, as carroças do lixeiro, do padeiro e do leiteiro, e s que tomavam o rumo da praça, carregando aos poucos a terra do barranco.

O grande sucesso cabia sempre aos carroções dos cervejeiros, com suas lindas parelhas de mulas gordas, principalmente quando transportavam Alsina ou gasosa em caixas quadriculadas. Ondulavam ao trote largo as ancas lisas, batiam no chão duro os cascos finos, tudo num ritmo empolgante, que o carroceiro incitava com uns ruídos de beiço, logo imitados pelo Rico, meu irmão, nos nossos brinquedos.

Só a imaginação poderá reproduzir o verde vivo daqueles campos de cevada que havia então na floresta, verde realçado violentamente pelo tijolo sem reboco das fábricas de cerveja. A chaminé foi a nossa primeira rima:

“A chaminé do Bopp
fabrica chope.
A chaminé do Rita
Que nunca apita.
A chaminé do Sassa
Que faz fumaça…”

Vejo tudo como se fosse hoje. O primeiro bonde elétrico parou em frente da nossa casa, como um brinquedo para gente grande. O monstro! Era uma engenhoca maravilhosa, que deslizava sobre os trilhos, sem casco de burro, ligada ao fio por uma alavanca de carretilha; na tabuleta vermelha ressaltava um F branco; os passageiros iam tão emproados…

– Olha o bonde sem burro!

E a gurizada, num berreiro de festa; – Óia o bonde eletro, óia ele!

Bibliografia

Correio da Manhã 26 de agosto de 1945

O OLHAR PROUSTIANO DE AUGUSTO MEYER: MEMÓRIA COMO REINVENÇÃO
Paulo Bungart Neto