As Fábricas de Criação de Barcelona

Barcelona, Economia Criativa, Economia da Experiência, Economia do Conhecimento, Fábricas de Criação, Memória, Patrimônio Histórico, Turismo

Introdução

No segundo semestre de 2015, UrbsNova está presente em Barcelona, em um processo de criar novas conexões entre as duas cidades, desenvolver colaborações com agentes culturais, arquitetos, empresas, governo e associações e procurar novas oportunidades para nosso projeto, o Distrito C – Distrito Criativo de Porto Alegre.

Nesse contexto mais amplo, as Fàbriques de Creació de Barcelona são, sem dúvida, um importante tema e por essa razão, foram recentemente tema na página do Distrito C, publicada mensalmente no Jornal Floresta.

Vamos, neste post, desenvolver um pouco mais as Fábricas de Criação, embora ainda seja um grande resumo, já que são muito importantes para Porto Alegre, para o futuro do 4º Distrito, e em especial para o Distrito C.
Esse é um resumo geral, mais adiante colocaremos links com dados e muitas fotos sobre cada fábrica.

Decadência industrial e Renascença criativa

Desde o final do séc. XIX, até os anos 70 do séc. XX, Porto Alegre utilizou sua zona norte, junto à orla, uma região pouco habitável, de banhados, depois zona rural, com chácaras, como sua zona industrial preferencial, dentro de um amplo território, que se chama ainda hoje “4º Distrito”. Esse panorama é muito similar ao desenvolvimento que se realizou no Distrito de San Martí, especialmente o bairro de Poblenou, onde ainda temos uma série de antigas fábricas sem função.

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Fábrica Ca L´Alier, Barcelona, abandonada desde 2004. Foto Jorge Piqué.

Desde 2000, a Prefeitura de Barcelona (em catalão, o Ajuntament) começou a implantar um projeto de revitalização nesse território, que passou a se chamar 22@Barcelona, baseado principalmente em TI e Economia do Conhecimento. Essa foi a resposta do município à uma certa decadência econômica e degradação urbana dessa região ao norte da cidade, mas que é bem menor do que a que encontramos no 4ª Distrito.
Em breve: post específico sobre o 22@.

22@

As áreas em azul são as que sofreram intervenções do Plano 22@Barcelona, no Distrito de San Martí.

O projeto Distrito Criativo, de UrbsNova, desde 2013, também procura criar uma nova identidade, contemporânea, inovadora e criativa, para uma parte da antiga região industrial, mas com duas diferenças fundamentais. Em primeiro lugar, a iniciativa não parte do governo e de grandes empresas. Na verdade, já houve esse tipo de proposta no passado recente. Nos anos 90, portanto, já antes da criação do 22@, a Prefeitura de Porto Alegre havia proposto o Parque Tecnológico do 4º Distrito, mas depois de 9 anos, foi desativado em 2004. Nossa proposta, ao contrário, vem dos pequenos e médios empreendedores criativos já instalados na região, sem ajudas ou apoios oficiais de governos.

Em segundo lugar, diferentemente do 22@, o setor de tecnologia, neste primeiro momento, não foi o nosso foco. Nos anos 90, o conceito já era de parque tecnológico e em 2015, se tenta repensar a ideia de clusters tecnológicos para toda a região do 4º Distrito. Hoje, no entanto, o que encontramos como vanguarda econômica e cultural consolidada são artistas e empreendimentos de economia criativa, do conhecimento e da experiência,  em pleno funcionamento, na sua grande maioria instalados a partir dos anos 2000, mas alguns mesmo antes. Hoje, setembro de 2015, são mais de 80 locais que participam de forma ativa no Distrito C,  sobre um território de aproximadamente 100 ha, gerando 600 empregos diretos e indiretos.

Para uma ampla comparação entre o 4º Distrito e o Distrito de San Martí, veja a primeira parte do texto Distritos de Inovação e Criação – Barcelona e Porto Alegre, em espanhol.

Nossa experiência recente com o Distrito Criativo nos leva a um interesse maior em iniciativas semelhantes, artes, cultura, economia criativa, que com o tempo ganharam em Barcelona o apoio do Ajuntament, e que hoje são conhecidas como Fábricas de Criação.

As Fábricas de Criação

No Distrito de San Martí, antes mesmo do 22@, começou um processo muito interessante, onde artistas alugavam antigas fábricas, muitas em ruínas, e criavam ali um espaço de criação e colaboração muito importante desde um ponto de vista cultural. Depois de mais de 8 anos investindo em empresas de tecnologia, devido principalmente à pressão de artistas e suas associações, a Prefeitura socialista de Barcelona institucionalizou as chamadas Fàbricas de Creació, em 2008. Após o 22@, que colocava a ênfase nas empresas de tecnologia, essa passou a ser a nova cara da cidade.

“El nuevo motor de Barcelona es la cultura y la creatividad”
Jordi Hereu, prefeito socialista, em 2008.

Atualmente são 10 na cidade e estabelecem uma reinterpretação da produção industrial e do passado histórico do território, criando novos significados e valores simbólicos, posicionando globalmente Barcelona como uma capital criativa.

Iniciativas do tipo Fábricas de Criação existem em muitas cidades da Europa, cada uma com suas peculiaridades, seu campo de atuação e seu modelo de gestão.

Existem 3 tipos básicos de gestão:
1. Propriedade pública, com gestão pública: esse é o modelo mais encontrado na França.

2. Propriedade privada, com gestão privada: esse é o modelo encontrado mais recentemente na Alemanha (nos anos 70 o modelo era a ocupação ilegal de fábricas).

3. Propriedade pública, com gestão transferida a associações ou à comunidade: esse é o modelo que encontramos mais em Barcelona, com exceções.

Neste post vamos tratar apenas de fábricas de criação localizadas no Distrito de San Martí e que, portanto, são a camada mais contemporânea de um ecossistema econômico-cultural, que tem como camada anterior, o 22@.

Palo Alto

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Palo Alto Market, um mercado de design e muitas outras coisas, que acontece no local no primeiro fim de semana de cada mês. Foto Jorge Piqué

A primeira utilização de uma edificação fabril para fins culturais talvez tenha sido Palo Alto, já em 1987, uma antiga fábrica têxtil de 1875, e que hoje reúne empresas da economia criativa e em alguns fins de semana organiza um mercado de rua de produtos, apresentações musicais e gastronomia, o Palo Alto Market.

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Palo Alto nos anos 90

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De fato, Palo Alto não é uma das 10 Fábricas de Criação de Barcelona, homologadas pela Prefeitura. É propriedade privada e com gestão privada, conforme um modelo que encontramos mais recentemente na Alemanha.

Pierre Roca & Associats, uma empresa cultural dedicada a performances, comprou a antiga fábrica em 1987. O espaço tem 11.000 m², com paredes internas recobertas de vegetação.

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Foto Jorge Piqué.

Reunimos algumas fotos mais de Palo Alto no Facebook.
Em breve, post completo com muitas fotos.

Vídeo, em espanhol, sobre Palo Alto.

La Escocesa

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Fundos da Escocesa com sua chaminé e suas paredes com grandes murais. Foto Jorge Piqué

Era uma antiga fábrica de produtos têxteis, de 1852, que estava em ruínas, quando o proprietário alugou para um grupo de artistas visuais, por um preço baixo nos anos 90.

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Depois de anos de lutas, desde 1999, a Prefeitura cedeu em 2008 uma das naves industriais a uma associação e hoje reúne 20 artistas visuais residentes, catalães, como Juan Francisco Segura Martinez e Montse Valls, e muitos estrangeiros, como Rina Ota e Mina Hamada (Japão), e Tamara Zaitseva (Rússia). No momento acontece um importante festival internacional de arte mural ali.

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Pátio interno da Escocesa. Foto Jorge Piqué.

Apenas uma das naus, com  2.400 m², do complexo industrial, é propriedade pública, que cede a gestão a uma associação de artistas. As demais naus são propriedade privada.  La Escocesa aluga espaços para ateliers, abaixo do preço de mercado, e recebe verbas municipais, por isso tem uma programação cultural gratuita para o grande público, especialmente para o distrito onde está localizada.

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Frente da Escocesa, em 2015. Foto Jorge Piqué.

O foco são as artes visuais e plásticas.

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Um dos ateliers de artistas da Escocesa. Foto Jorge Piqué

La Escocesa organiza anualmente a seleção de artistas internacionais para residência e oferece espaço expositivo para seus residentes.

Clique na imagem para ver reportagem da Televisão Espanhola, programa La Aventura del Saber, sobre a Fábrica de Creación La Escocesa.

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Em breve, post completo com muitas fotos.

Hangar

Outra Fábrica de Criação, nasceu da luta acirrada dos moradores que apoiaram a Associação de Artistas da Catalunha para preservar a antiga fábrica Can Ricart, de 1852. Este complexo industrial de 21.000 m² se dedicou durante décadas à confecção de tecidos.

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Foi uma das lutas mais simbólicas pelo patrimônio histórico em Barcelona nos anos 90 e finalmente, em 1997, o ativismo de artistas e moradores convenceu a Prefeitura da importância de um uso cultural, ainda que parcial.

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Estado abandonado de Can Ricart.

 

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Durante anos a população se mobilizou para salvar a fábrica.

El 2010 Hangar entrou em fase de ampliação e reabilitação. Hoje funciona como fundação em uma das naves do complexo industrial, que é muito grande e que terá uso habitacional. Ocupa no total 2.600 m² e abriga 15 ateliers para artistas; um espaço de coworking, laboratórios de vídeo, imagem e interativos; 2 estúdios e oferece assessoria técnica e acompanhamento à produção.

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Foto Jorge Piqué.

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Espaço de criação e espaço administrativo de Hangar. Foto Jorge Piqué

Seu foco são as artes visuais, mas recentemente abriga também projetos de audiovisuais, vídeo, arte digital e tecnologia.

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Estúdio em Hangar. Foto Jorge Piqué

Hangar, além de centro de produção artística é também um centro de investigação sobre a arte. Anualmente são realizados concursos para residências internacionais de artistas e um espaço foi reformado para hospedar 4 artistas, que moram nas instalações.

Em breve, post completo com muitas fotos.

La Central del Circ

Como nos casos de Escocesa e Hangar, La Central del Circ nasceu da luta da Associação dos Profissionais do Circo da Catalunha e, em 2008, foi criada pela Prefeitura de Barcelona, como um espaço de criação, investigação, treinamento, ensaio e formação contínua.

Em 2011 se mudou para as instalações atuais, um espaço de mais de 3.000 m² no Parc del Fòrum de Barcelona, um amplo espaço para eventos, no extremo norte da cidade.

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Fachada da Central del Circ. Foto Jorge Piqué.

É a única “fábrica de criação” no Distrito de San Martí que não era no passado uma verdadeira fábrica. O modelo é de propriedade pública, com gestão repassada à uma associação de artistas de circo da Catalunha.

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Amplo espaço geral para ensaios. Foto Jorge Piqué.

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Acesso aos espaços privados de ensaios. Foto Jorge Piqué.

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Espaço privado para ensaios. Foto Jorge Piqué

A Central del Circ aceita grupos de teatro para residência.bolsa para produtor residente. Também organiza residências externas. Por receber aporte municipal, desenvolve uma série de iniciativas com escolas públicas.

Veja um vídeo, que mostra de uma maneira rápida as instalações.

Em breve, post completo com muitas fotos.

Fábrica Fabra i Coats

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Foto Jorge Piqué.

Por último, a única fábrica de criação em Barcelona, que é de propriedade e gestão pública. É também a única que não está na área do Distrito de San Martí, no qual está o 22@.

A fábrica se localiza em Sant Andreu, que, como o Poblenou, era antes um povoado nas vizinhanças de Barcelona. Com a expansão da cidade, no final do séc. XIX, se integraram ao perímetro urbano e é dessa época que surge o início da fábrica, que se dedicava a fiação. A nave de tijolos, com 4 andares, onde hoje se encontra a fábrica de criação, é de 1910-20.

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Foto área que mostra todo o complexo industrial. Apenas do prédio com as duas torres é usado como Fábrica de Criação.

Os amplos espaços internos de uma das naves do complexo foram recuperados para a função de Fábrica de Criação, que tem 6.500m². Os demais edifícios do complexo foram cedidos a outras associações, mas também com função cultural, como a biblioteca de bairro, o Centro de Arte Contemporânea, ou estão ainda a espera de recuperação.

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Foto Jorge Piqué.

Por ser administrada pela municipalidade, não se especializou em um único setor artístico, como as demais. Inclui artistas e projetos de artes visuais, artes cênicas, música, e multimídia. Esta fábrica está completamente integrada a vida cultural e educacional do Distrito de Sant Andreu.

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Uma das áreas é ocupada por pequenas empresas criativas, cada uma com sua mesa, no formato de coworking. Foto Jorge Piqué.

Até 5 companhias de teatro, dança ou circo podem ensaiar simultaneamente em suas instalações.

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Foto Jorge Piqué.

Por ser o maior dos espaços, Fabra i Coats na verdade é muito mais que uma fábrica de criação. O mesmo complexo industrial dá espaço para muitas e diferentes entidades culturais, educativas e associativas. Veja uma apresentação geral de todas as atividades neste vídeo em catalão:

Em breve, post completo com muitas fotos.

Essas são as 3 fábricas de criação no Distrito de San Martí, onde está o 22@, mais Fabra i Coats, que é uma espécie de sede oficial da rede, embora cada local tenha sua personalidade e administração própria.

Outras fábricas de criação em Barcelona são: Ateneu Popular 9 Barris (artes cênicas, circo, dança e música), Graner (dança), La Seca (artes cênicas), Nau Ivanow (artes cênicas, artes visuais e artes multidisciplinares), Sala Beckett (artes cênicas), e La Makabra.

As fábricas de criação de Barcelona estão em diferentes partes da cidade, mas se nota uma concentração na região norte, que era exatamente a zona industrial da cidade e que nos últimos anos sofreu mais com a desindustrialização e que tinha os bairros com maiores problemas.

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Casas de Criação e Fábricas de Criação no Distrito Criativo

No Distrito C temos no momento outro modelo, com muitos empreendedores e artistas ocupando antigas residências. Algumas, que poderíamos chamar de “Casas de Criação”, lugares como Centro Cultural Tony Petzhold, Vila Flores, CC100, esporo.cc, Studio Q, La Casa de Pandora e Casa da Música tem funções parecidas às Fábricas de Criação, pois reúnem diferentes setores artísticos, fomentando a hibridização entre eles, e incluem outras áreas da economia criativa, como design, música, moda, e da economia da experiência, como gastronomia.

Mas, além do belo patrimônio histórico residencial, que já está sendo ocupado por empreendimentos privados de economia criativa, temos um importante patrimônio comercial e industrial e, por exemplo, a Associação Chico Lisboa, que carece de amplos espaços expositivos, ateliers e oficinas para cursos, poderia encontrar sua nova sede no Distrito C, ocupando uma das antigas fábricas ou grandes prédios no bairro Floresta, o que viria a contribuir para a dinamização cultural e econômica de toda a região.

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Obra: Maria Tomaseli (2013)

Jorge Piqué
Fundador de UrbsNova
logomicro

https://www.facebook.com/jorge.pique
jorgepique@gmail.com
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