A Casa da Floresta, de Augusto Meyer

Memória

Em 26 de agosto de 1945, Augusto Meyer (Porto Alegre 24/01/1902 – Rio de Janeiro 10/07/1970) publicou  no Jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, uma crônica com lembranças da sua infância no bairro Floresta, em Porto Alegre, chamada A CASA DA FLORESTA.

Tinha, portanto, 43 anos quando escreveu este texto, que reproduzimos abaixo (clique para ampliar).
Se imaginarmos que essas memórias em estilo proustiano, segundo Paulo Bungart Neto, eram dos seus 10 anos, deviam se referir aos anos de de 1912-15, ou seja, 30 anos antes, no mínimo.

Este post integra a linha de ação Memória Viva do Distrito Criativo, que tenta recuperar por fotos, vídeos e textos as lembranças dessa parte da cidade.
É muito importante para o Distrito Criativo esse contato com o passado da região, só assim teremos propostas melhores para o seu futuro.

A Casa da Floresta, de Augusto Meyer, 1945Alguns anos mais tarde, em  1949, o texto foi publicado como “O menino da Floresta”, terceiro
capítulo do livro “Segredos da Infância”  (Porto Alegre: Editora Globo. 1ª ed. 1949)

Ainda não havíamos enveredado pelo caminho da escola. Acordar de manhã, ouvindo o canto dos passarinhos nas laranjeiras do quintal, vendo o fogo do sol nas cortinas claras da janela, era reatar o mesmo sonho acordado, ir ao encontro das puras sensações, descobrir o grande mundo confuso e imprevisto da infância.

Fazíamos a primeira refeição na sala de baixo, com janelas gradeadas que davam para a rua. O velho Sampaio, pai de Aparício, lá na frente, do outro lado da calçada, abria as portas da loja, monologando sob os bigodões retorcidos. Seu Rafael ia esperar o bondinho de burro na esquina. Criadas e donas de casa batiam papo, de vassoura em punho e, depois de varrer o lajedo grosseiro, recolhiam a lata do lixo. Com o sol ainda baixo, sombras compridas atravessavam a rua poeirenta, cheia de pedras e buracos, onde as rodas e cascos deixavam marcas misturadas de sulcos e ferraduras.

Ninguém falava então em Cristóvão Colombo, rua da floresta, diziam todos, e que nome sugestivo, acenando à imaginação com uma espessura verde e fresca, incompatível com as casas e as calçadas, mas, por isso mesmo, ainda mais impregnada de misterioso encanto.

Por ali passavam as coisas surpreendentes do dia-a-dia, as carroças do lixeiro, do padeiro e do leiteiro, e s que tomavam o rumo da praça, carregando aos poucos a terra do barranco.

O grande sucesso cabia sempre aos carroções dos cervejeiros, com suas lindas parelhas de mulas gordas, principalmente quando transportavam Alsina ou gasosa em caixas quadriculadas. Ondulavam ao trote largo as ancas lisas, batiam no chão duro os cascos finos, tudo num ritmo empolgante, que o carroceiro incitava com uns ruídos de beiço, logo imitados pelo Rico, meu irmão, nos nossos brinquedos.

Só a imaginação poderá reproduzir o verde vivo daqueles campos de cevada que havia então na floresta, verde realçado violentamente pelo tijolo sem reboco das fábricas de cerveja. A chaminé foi a nossa primeira rima:

“A chaminé do Bopp
fabrica chope.
A chaminé do Rita
Que nunca apita.
A chaminé do Sassa
Que faz fumaça…”

Vejo tudo como se fosse hoje. O primeiro bonde elétrico parou em frente da nossa casa, como um brinquedo para gente grande. O monstro! Era uma engenhoca maravilhosa, que deslizava sobre os trilhos, sem casco de burro, ligada ao fio por uma alavanca de carretilha; na tabuleta vermelha ressaltava um F branco; os passageiros iam tão emproados…

– Olha o bonde sem burro!

E a gurizada, num berreiro de festa; – Óia o bonde eletro, óia ele!

Bibliografia

Correio da Manhã 26 de agosto de 1945

O OLHAR PROUSTIANO DE AUGUSTO MEYER: MEMÓRIA COMO REINVENÇÃO
Paulo Bungart Neto

 

Anúncios